Pop Up 2010 começa a dar que falar!

1 comentário:

Catarina Patrício Leitão disse...

Da leitura do regulamento do evento “Pop Up Lisboa 2010” – que pelo meu entender visa fazer uma antropologia do Mundo Global, dos modos de reagrupamento e modelos de circulação específicas do mundo contemporâneo, cristalizando num acontecimento o olhar dos diversos “artistas como etnógrafos” seleccionados (paradigma de Hal Foster e cujo pano de fundo remonta ao matricial “Der Autor als Producent” de Benjamin) – diversas questões se me assomaram, concernentes sobretudo às categorias “não-lugar” e “site-specific”, pelo que humildemente peço esclarecimentos:

Primeira questão: da diferença entre lugar antropológico e não-lugar.
A categoria “não-lugar” opõe-se ao “lugar antropológico” (Mauss, Durkheim), sendo este último definido como identitário, relacional e histórico. Logo, segundo Augé, um “não lugar” não é identitário, relacional ou histórico. Mais, e aqui se desenha a dúvida: para Augé terá de haver uma relação contratual com o “não-lugar”; o utilizador terá de seguir mesmo um guia de uso (le mode d’emploi), o que pressupõe o acesso autorizado ao mesmo – o ticket da portagem, o ticket do parque de estacionamento, o bilhete de comboio ou de avião, o carrinho de compras do super-mercado, ter marcação num dentista, etc, etc, etc. É um sítio de passagem – estação de comboios, aeroporto, hiper-mercado, consultório médico, auto-estrada – ahistórico, arelacional, a identitário. Um “não-lugar” não é, segundo a definição de Augé, um espaço urbano abandonado, como consta no regulamento. Logo, em que não-lugares serão inseridos os trabalhos?

Segunda questão: “…inseridos os trabalhos?”. Uhm... bem, isto dá que pensar... Se o objectivo é a apresentação de projectos artísticos site-specific, como poderão ser “sítios-específicos” se os candidatos não têm acesso a esses “so-called non-lieux”? Eu, que pondero concorrer, tenho esta dúvida... O candidato terá de imaginar um “so-called non-lieux” e, sem qualquer ligação ao espaço em-si, conceber uma obra “dimensões máximas: Altura 270cm x Largura 400cm x Profundidade 400 cm”. Como é que a categoria site-specific irá contribuir para o fazer? É que nem se poderá falar em “site-oriented”, uma outra categoria dentro dos “sites”.

Termino este meu pedido de esclarecimentos com uma citação de Richard Serra que poderá ajudar:
“ It is a site-specific work and as such not to be relocated. To remove the work is to destroy the work.”

Catarina Patrício